Monsenhor Bastos

Desapareceu a principal figura de Peniche

© João Polónia Fotografia de Autor joaopolonia.oeste@gmail.com
© João Polónia

Foi durante 61 anos responsável pela paróquia de Peniche. Monsenhor Manuel Bastos, principal figura daquele concelho, faleceu no passado sábado. As exéquias fúnebres realizaram-se um dia depois e contaram com a presença do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo.

 

O corpo esteve em câmara ardente na Igreja de S. Pedro, em Peniche, seguindo-se a trasladação para o Pavilhão Polivalente de Peniche (junto ao Hospital) onde foram celebradas exéquias, presididas pelo Cardeal Patriarca, seguindo-se o funeral para o cemitério local.

 

O sacerdote, de 88 anos, dedicou a sua obra pastoral ao apoio social à comunidade, consolidando um património que engloba jardins-de-infância, creches, um clube recreativo e até um jornal quinzenal, empregando oitenta funcionários. Só o estado de saúde travou o seu dinamismo, confirmado pelos vários galardões municipais que recebeu. Tem o seu nome atribuído a uma das principais avenidas da cidade de Peniche.

 

Nasceu a 5 de Maio de 1922, em Matadussos, freguesia de Esgueira, concelho de Aveiro, tendo sido ordenado sacerdote em 6 de Julho de 1947. Frequentou os Seminários de Santarém (1936-1938), Almada (1938-1941) e Olivais (1941-1947), tendo sido ordenado a 6 de Julho de 1947. A 14 de Setembro desse ano foi como pároco para Peniche, paróquia pelo qual foi responsável até Setembro de 2008.

 

Ao longo da sua vida sacerdotal exerceu as seguintes funções: capelão da Cadeia do Forte de Peniche (de Outubro de 1955 a Março de 1976); capelão do Porto de Pesca de Peniche; professor de Religião e Moral; pároco de Vau, Amoreira, Olho Marinho e Serra d’El Rei (temporariamente, por diversas ocasiões); vigário da vara de Lourinhã e Peniche (de Janeiro de 1971 a Outubro de 1993); membro da Comissão Nacional de Justiça e Paz; membro do Conselho Presbiteral; grande impulsionador do Stella Maris (Apostolado do Mar).

 

A 19 de Junho de 1981 foi nomeado Monsenhor. Ao longo dos anos em que foi pároco de Peniche, “marcou profundamente o panorama social da cidade, ultrapassando claramente as responsabilidades meramente religiosas inerentes à função”, manifesta a autarquia de Peniche, em sua homenagem.

 

Podemos dizer, sem sombra de dúvida, que a nossa terra não seria o que é hoje se, em 1947, o Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira não tivesse enviado o jovem padre Manuel Bastos para Peniche. Para quem não sabe, o seu sonho era ir para África. Mas Peniche – “a África às portas de Lisboa” (nas palavras do Cardeal Cerejeira) – foi o destino. Felizmente, para Peniche e para os penicheiros, o espírito missionário não ficou pelo caminho”, lê-se na mensagem da autarquia.

 

A provar o seu dinamismo está toda a acção cultural e social desenvolvida pela Paróquia de Peniche nas décadas em que permaneceu “ao leme”: um lar, dois jardins-de-infância, duas creches, uma oficina de renda de bilros, um clube recreativo e desportivo e dois pavilhões desportivos, só para falar no que é mais visível.

 

Logo na primeira década de permanência em Peniche destacou-se por duas respostas sociais “de peso”: a então intitulada “Sopa dos pobres”, resposta à miséria criada em Peniche por períodos de defeso e outras crises económicas, que matou a fome de muitos, e a criação do Lar de Santa Maria (em 1956), lar residencial misto (uma realidade inovadora e polémica na época) a que, uns anos mais tarde se juntou o Jardim de Infância de Santa Maria, numa interessante convivência de gerações (crianças e idosos) altamente pedagógica.

 

Sempre na vanguarda, a actividade do padre Bastos multiplicou-se em muitos outros actos pastorais (conversas, cartas, viagens) e concretizou-se nos diversos organismos, movimentos e serviços da paróquia.

 

Especialmente atento aos que mais necessitam (crianças, idosos, reclusos, doentes), dedicou também particular atenção aos homens do mar e seu meio-ambiente e à diáspora penicheira espalhada por Portugal e pelo mundo”, refere a autarquia.

 

Quando Monsenhor Manuel Bastos chegou a Peniche, em 1947, depois de ter sido ordenado sacerdote no seminário dos Olivais, desconhecia a realidade que iria encontrar naquela comunidade piscatória, onde, considerava, “se vive a fé de maneira diferente, como é comum nas populações que estão à beira-mar”.

Só tinha ido uma vez à localidade, integrado num coro do seminário. Tive de me inteirar dos problemas da pesca e da comunidade dela dependente, no sentido de estar atento e desenvolver a minha acção pastoral”, chegou a relatar ao JORNAL DAS CALDAS, numa reportagem efectuada em 2007.

 

Foi por sua acção que foi constituída uma capelania no porto de Peniche. “Dantes não havia porto de pesca, era uma praia, e quando começou a ser construído, todos acharam bem que houvesse aqui um capelão para dar seguimento ao apostolado do mar da Santa Sé”, contou, recordando que “fui a um congresso mundial do apostolado em Liverpool e fui nomeado capelão do porto de pesca”.

 

A capelania não é mais do que “uma capela, lugar de silêncio, de oração e de encontro com Deus, a fim de ir ao encontro das exigências da assistência religiosa de que têm necessidade os marítimos do comércio e da pesca, as suas famílias, o pessoal dos portos e todos os que empreendem uma viagem por mar”.

 

Surgiu também a ideia de fundar um clube “Stella Maris”, para desenvolver actividades recreativas e desportivas de ocupação da população de Peniche e onde também se presta assistência espiritual.

 

Sobre a sua relação com a comunidade, o sacerdote comentou que “ficámos profundamente fraternos e ganhámos confiança mútua”.

 

O Lar de Santa Maria foi a sua obra emblemática. “Eu não gostava de lares, a não ser como complemento da família, mas era um mal necessário, devido à pobreza e à solidão”, manifestou, indicando que “apareceram oito velhinhas e nós aceitámo-las e nem tínhamos espaço para mais”.

 

Entretanto aparece uma menina de sete anos, filha de pai incógnito e cuja mãe sofria de limitações muito grandes e nos pediu que a aceitasse. As velhinhas passaram a ter uma netaA estrutura cresceu e tivemos de alugar uma casa, porque começaram a aparecer homens e casais”, descreveu.

 

A iniciativa na altura não foi bem aceite, porque não havia experiências do género.

 

Escandalizava juntar todas as pessoas no mesmo espaço e nós fomos a Lisboa com o presidente da Câmara para tentar ajudas materiais. Tive de ser duro e cheguei a dar um murro na mesa na Direcção-Geral de Assistência para o Governo apoiar, mas demoraram cinco anos a dar a resposta”, recordou.

 

O lar custou cerca de cinco mil contos e foi comparticipado pela Fundação Calouste Gulbenkian em setenta por cento, o que nos facilitou imenso. Os trinta por cento que couberam à paróquia foram suportados por mestres de embarcações de pesca”, indicou.

 

 

Foto: João Polónia

Texto: Francisco Gomes

http://www.jornaldascaldas.com/index.php/2010/06/16/monsenhor-bastos/

 

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