11 de fevereiro de 2013

Cardeal-patriarca fala em ato «corajoso» do Papa
Renúncia do Papa vista como «precedente» positivo por D. José Policarpo

(D.R. | D. José Policarpo e Bento XVI no Mosteiro dos Jerónimos, maio de 2010)
(D.R. | D. José Policarpo e Bento XVI no Mosteiro dos Jerónimos, maio de 2010)

Lisboa, 11 fev 2013 (Ecclesia) – O cardeal-patriarca de Lisboa disse hoje que a renúncia apresentada por Bento XVI, com efeitos a partir de 28 de fevereiro, é um “ato corajoso” que vai introduzir novidades no futuro da Igreja.


“Este foi um ato extraordinariamente corajoso que vai introduzir na Igreja um ritmo novo, mas só o futuro vai dizer qual. Sobre o ponto de vista canónico esta situação está prevista: como ele é a autoridade máxima apenas a ele lhe cabe de tomar a decisão”, disse D. José Policarpo à Renascença.


O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa lembra o livro-entrevista ‘Luz do Mundo’, publicado em 2010, no qual Bento XVI fazia referência a uma possível renúncia.


“Ele já tinha anunciado, com toda a clareza, que se chegasse o momento de achar que não estava em condições apresentaria a resignação, mas apanhou-nos de surpresa”, afirma D. José Policarpo que faz um “balanço muito positivo” do seu pontificado, pois não foram, anos fáceis.


“O mundo de hoje é complicado e a Igreja teve dentro dela alguns problemas como o caso dos escândalos sexuais dos sacerdotes ou a ameaça de cisma ligados aos conservadores de monsenhor Lefèbvre”, situações que Bento XVI enfrentou com “lucidez, beleza do seu ministério e grande capacidade de diálogo nas mais diversas circunstâncias”.


O cardeal-patriarca elogia, por outro lado, o “dinamismo” com que este Papa colocou a Igreja a “celebrar os 50 anos da abertura do concílio, declarando solenemente a sua atualidade”.


“Penso que é uma boa plataforma de transição, pois deixou a mensagem que a Igreja tem de continuar a acolher o concílio e a colocá-lo em prática", sublinha.


Aos católicos, o patriarca de Lisboa deixa uma mensagem particular: “São chamados a viver este momento com normalidade espiritual, com fé, devem rezar muito para a próxima etapa. Pois nada de especial aconteceu: ele está vivo e vai agora recolher-se".


Esta manhã, durante um Consistório público para a promulgação de três novos santos da Igreja Católica, Bento XVI transmitiu aos membros do Colégio Cardinalício a sua intenção de abdicar do cargo, abrindo assim caminho para a eleição de um novo Papa.


“Cheguei à conclusão de que as minhas forças, por causa da idade avançada, já não são adequadas para exercer de forma apropriada o ministério petrino”, disse aos seus colaboradores, em latim.


O Papa salientou ainda que a sua reflexão teve em conta o momento atual “de grande importância” que a Igreja está a viver, e surgiu “após ter repetidamente examinado a sua consciência diante da Deus”.


Joseph Ratzinger, eleito em abril de 2005 para suceder a João Paulo II, completa 86 anos de idade dentro de 2 meses.


A resignação de Bento XVI vai ter efeito a partir das 20h00 (menos uma em Lisboa) do dia 28 de fevereiro, altura em que a Igreja ficará em estado de “Sé Vacante” até que um novo Papa seja escolhido através de um Conclave eleitoral.


O Código de Direito Canónico, prevê a possibilidade jurídica de renúncia por parte do Papa e esta renúncia não precisa de ser aceite por ninguém para ter validade, como indica o Cânone 332.


O que se exige é que o Papa renuncie livremente e que manifeste a sua decisão de modo claro e público, como aconteceu esta manhã no Vaticano.

 

O último caso de renúncia, situação pouco comum na história da Igreja, tinha sido o do Papa Gregório XII, em 1415.

 

 

RR/OC