Visita aos reclusos da cadeia de Caldas

16 de Maio de 2012

Celebração litúrgica
Celebração litúrgica

O pároco de Caldas da Rainha, cónego Joaquim Duarte presidiu a uma celebração litúrgica proclamando a Palavra de Deus aos reclusos do Estabelecimento Prisional de Caldas da Rainha, acompanhado pelos visitadores católicos e de outros cristãos da comunidade paroquial, no dia 25 de Abril.

 

A celebração pascal teve lugar na sala de visitas do Estabelecimento Prisional, onde compareceram cerca de trinta reclusos. O sacerdote salientou a importância da Assistência Religiosa Católica nas Caldas da Rainha, considerando o encontro como “um sinal de alegria e de união com o Senhor”.

 

O JORNAL das CALDAS falou com Fernando Alves, coordenador geral do grupo de visitadores, o qual deu a conhecer os objetivos e a dinâmica do movimento, e exprimiu a utilidade da Pastoral Penitenciária, que nos últimos 30 anos desenvolve na cidade das Caldas.

 

O Grupo de Visitadores do Estabelecimento Prisional está integrado na estrutura da Paróquia de Caldas da Rainha e é formado por voluntários, homens e mulheres, “que se sentem impelidos como cristãos a estar com uma camada da sociedade, tantas vezes esquecida e muitas vezes marginalizada”, manifestou Fernando Alves. O cónego Joaquim Duarte é o assistente religioso católico, designado pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, e os visitadores são seus colaboradores, com quem tem uma estreita cooperação.  

 

Através da expressão do Evangelho: “estava preso e foste-me visitar…”, o coordenador geral do grupo de visitadores manifestou que o que os move nesta atividade é a necessidade de “estarmos junto daqueles que mais precisam”. “Quando nos deslocamos à prisão fazemo-lo em nome da comunidade paroquial em que nos inserimos, da mesma forma que outros o fazem também junto dos doentes, dos carenciados de bens básicos de subsistência, dos desprotegidos e marginalizados da sociedade”, manifestou. Na realidade, “é frequente ouvir-se a expressão: ‘Erraram, estão presos, estão lá muito bem, têm é que pagar pelo mal que fizeram’”, este “raciocínio simplista e sem análise das causas que levaram a determinados comportamentos desviantes, em nada contribui para a tão apregoada e desejada ‘inclusão social’”, afirma Fernando Alves considerando que “naquela linha de pensamento, é difícil, para alguns entender o trabalho dos voluntários que visitam os reclusos”. O grupo de visitadores é da opinião de que quem prevaricou deve ser responsabilizado pelos seus atos e de que a prisão é, em muitos casos, o local indicado para o cumprimento da pena. Por outro lado, “a sociedade tem a responsabilidade de contribuir para a reabilitação e reinserção social dos seus membros”, frisou Fernando Alves.


Os elementos do grupo de visitadores pretendem levar, essencialmente, uma palavra de esperança, dizendo que Deus ama a todos e que nunca é tarde para recomeçar. “Quantas vezes, somos nós a ponte entre o recluso e a sua família, a qual em alguns dos casos, por razões facilmente compreensíveis, é a primeira a não querer ouvir falar do seu membro que se desviou e tanto a faz sofrer”, revelou o responsável caldense. A reinserção social ou inserção dos reclusos na sociedade é outra das grandes preocupações da Pastoral Penitenciária. Nem sempre é fácil a reintegração dos ex-reclusos, porque “a sociedade coloca-lhes um rótulo e, é preciso dizê-lo, muitos deles nunca estiveram inseridos na sociedade”. Este apoio espiritual é essencial e imprescindível na ajuda à reintegração dos reclusos na sociedade, após cumprimento da pena. “Na medida das nossas possibilidades financeiras, tentamos apoiar os reclusos em vestuário, artigos de higiene pessoal, objetos religiosos e outros bens que se justifique fornecer”, contando sempre com “ajuda de outros cidadãos e empresas que connosco colaboram, através das suas ofertas”, referiu o representante do movimento.

 

Independentemente de visitas particulares que possam ocorrer, o grupo de visitadores desloca-se ao Estabelecimento Prisional, aos sábados, de quinze em quinze dias. “Durante a hora que nos é concedida, começamos por ler e refletir sobre o Evangelho do domingo seguinte; a partir daqui inicia-se um diálogo que nos pode levar aos mais variados temas, tentado sempre que, de forma livre, o recluso seja o mais interventivo possível, sem se sentir coagido”, explicou Fernando Alves. A par destas visitas quinzenais é feita a Celebração da Palavra pelo Natal e pela Páscoa, com a presença do pároco que é, igualmente, o capelão da cadeia.

 

Uma das regras do visitador é nunca perguntar ao recluso o motivo pelo qual está detido. Se este o quiser fazer, é aceite. “Não devemos, nem queremos fazer juízos de valor, o importante é sentirmos que temos perante nós, uma pessoa que merece ser escutada e respeitada na sua dignidade”, independentemente dos crimes cometidos, e auxiliada na sua caminhada de recuperação e reinserção, exprimiu o coordenador geral sobre a principal atitude perante o recluso, salientando que “não é difícil entrar no meio prisional, porque são pessoas carenciadas e ávidas de contato com o mundo exterior”. Os reclusos “recebem-nos de braços abertos e manifestam apreço pelo nosso trabalho o que, embora não esperando recompensa, nos fortalece na nossa missão”, partilhou o responsável pela equipa da Pastoral Penitenciária caldense.

 

Todo este trabalho de assistência religiosa e voluntariado prisional deve ser feito em estrita ligação com a Direção do Estabelecimento e o seu corpo de guardas. “Temos sentido bastante apoio e colaboração por parte destas estruturas, o que muito tem facilitado o nosso trabalho”, concluiu Fernando Alves.

 


João Polónia/Jornal das Caldas

 

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