Eucaristia em Santa Susana – Landal integra cante alentejano e apela à construção da comunidade sob o ritmo do coração solidário

Na primeira passagem por terras da região Oeste, o Grupo Coral e Etnográfico Cubenses Amigos do Cante iniciou a Eucaristia dominical entoando o cante alentejano ‘O Bom Pastor’, em Santa Susana, freguesia de Landal, concelho de Caldas da Rainha, no passado 28 de janeiro. O padre José Gonçalves exortando os crentes à “construção” da comunidade sob “o ritmo do coração solidário”, valorizou a “força da partilha” dos que “entendem” que quando existe “uma necessidade maior”, fazem tudo para que a resposta seja sempre “presente”.

 

“Não tenhamos medo destas realidades, tenhamos medo sim em dizer mal dos outros, esse é o curto-circuito que fazemos ao bem comum”, afirmou, pedindo aos presentes para que o seu coração não se endureça, “não fique duro” aos gestos de paz, de verdade, fraternidade e de solidariedade.

 

Segundo o sacerdote, o primeiro cante entoado pelos habitantes de Cuba, que tem como refrão, ‘Cristo Senhor és o guia, o Bom Pastor que me conduz, a minha vida e a minha luz’, dá a todos os cristãos “força para caminhar no meio dos trambolhões da vida”. “Jesus Cristo é sem dúvida o nosso refúgio, fortaleza e amparo”, acrescentou.

 

Na homilia, o padre José Gonçalves disse que a liturgia daquele domingo evoca à temática da escuta e do escutar: ‘Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações’. Pedindo aos fiéis para serem “tutores da paz, da alegria e do abraço do perdão”, o responsável desejou que esta voz da verdade fique gravada no coração de cada um, faça história nas suas vidas e percurso de existência no mundo.

 

“A solidariedade é a maneira simpática e muito bonita como nós devemos crescer e viver em sociedade. A solidão não gera nada, o egoísmo ainda menos, o orgulho e a vaidade a todos nos desunem”, alertou.

 

Para o sacerdote é necessário saber escutar e memorizar a mensagem no coração, para que de “coração transformado”, se entenda cada vez mais a “dinâmica do bem”. “O mau feitio de dizer mal dos outros, o mau feitio de pensar coisas menos positivas, o mau feitio de só agarrarmos aos bens materiais, à fama, ao poder, aos privilégios; azedam na nossa relação humana”, frisou.

 

Lembrando as palavras do Papa Francisco, na sua recente intervenção, o padre José Gonçalves disse que a força do voluntariado é capaz de converter o mundo tão orgulhoso. “Dando bofetadas sem mão, os voluntários interrogam o mundo egoísta, que se dinamiza pelos interesses e bens”, reforçou.

 

O presbítero manifestou ainda que a Palavra de Deus “incomoda”, porque quem se agarra a ela tem de dar uma “grande volta à vida, tem de dar volta ao seu coração”.

 

“Muitas pessoas vivem ao abrigo da ganancia, da corrupção, em função dos interesses financeiros, na procura desmedida dos cargos e estatutos sociais, provocando tantas guerras, violência e conflitos; esses ainda não entenderam o que é a Palavra de Deus”, indicou.

 

Caracterizando as obras de misericórdia como “o verdadeiro tecido social e humano”, na convivência de uns para com os outros, o responsável pediu à comunidade paroquial para dar cada vez mais importância ao que “gera e constrói o verdadeiro edifício da verdade”.

 

No final da celebração eucarística, os Amigos do Cante louvaram a padroeira de Portugal, dedicando o seu cante a Santa Susana, a qual dá nome àquela pequena localidade da freguesia do Landal. Já no exterior, e perfilados na escadaria da capela, o grupo convidou os cristãos a ouvir e a meditar o tradicional ‘Cante ao Menino’. Três cânticos religiosos entoados pelo grupo alentejano, que suscitou na comunidade paroquial, o gosto por esta tradição polifónica, fomentando o silêncio e o auxílio na interiorização das suas preces.

 

O dia “grande” vivido em comunidade, foi marcado também por um almoço solidário, que reverteu fundos para a reconstrução da residência paroquial, recentemente consumida pelo fogo, ao desalojar este pároco das paróquias de A-dos-Francos, Landal e São Gregório do Patriarcado de Lisboa.

 

Em declarações ao Comércio & Notícias, o padre José Gonçalves disse que a liturgia hoje tem espaço para todas as vozes e deve promover, “com abertura suficiente”, todas as tradições musicais do nosso país.

 

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) elegeu o Cante alentejano como Património Imaterial da Humanidade em 2014. No entender deste sacerdote, se o Cante encanta multidões e tem elevo junto da comunidade internacional, também a Igreja Católica deve acolher o seu cantar no aspecto litúrgico, da mesma forma como já acontece com o Fado.

 

“Se não tiver lugar, considero que a liturgia escapa aquilo que são as pessoas, no fundo é também para as pessoas e não só para Deus. Nós precisamos da liturgia para crescer na fé, para crescer na alegria, para crescer na fraternidade, conforme Deus nos aconselha”, alertou.

 

O pároco clarificou que não se pretende cantar canções extra religiosas, mas sim cânticos que são “expressão de um povo”, mesmo a nível cristão, que ao longo da sua história se tornou presente com letras e músicas; “esse mesmo sentido é o palpitar da fé”.

 

Ao Comércio & Notícias, o padre José Gonçalves revelou ainda que foi com “emoção e imensa alegria” que ouviu o Cante dedicado a Nossa Senhora, com adaptação da letra, evocando também Santa Susana. “Fiquei comovido perante o cantar desta gente que apesar de tudo, gente já idosa, com dores no corpo e alguns achaques, mas que cantaram de uma maneira tão sublime e tão encantadora, que até nos inspira tanta espiritualidade”, confessou, lembrando que o ditado popular ‘cantar é rezar duas vezes’ continua bem presente e “ajuda-nos a interiorizar mais a sua palavra”.

 

 

João Polónia/Comércio & Notícias (texto e fotos)

 

(notícia João Polónia publicada no Comércio & Notícias a 1 de fevereiro de 2018)

 

http://comercioenoticias.pt/2018/02/01/eucaristia-em-santa-susana-landal-integra-cante-alentejano-e-apela-a-construcao-da-comunidade-sob-o-ritmo-do-coracao-solidario/